|
Início | Textos didácticos | A Saúde dos Olhos | Notícias | Olhares sobre a cegueira | Leis e Ajudas | Contactos | ||
|
|
personagens cegas na literatura brasileira: estereótipo e símbolo
ABSTRACT: This article tries to discuss some possibilities of blindness representation on literature, from analysis of blind characteres of two brazilians stories. It tries to unvil stereotipies there reproducted and also shows the symbolic function of blindness connected to the knowledge uncapacity and to the participation on social life. ♣
A cegueira, como ausência da capacidade sensível de ver, pode ser percebida na literatura como um símbolo considerando sua possibilidade de evocar outros sentidos. O não-ver das personagens cegas aguça nossa atenção para o que está oculto, para aquilo que não se revela de imediato em um primeiro e desavisado olhar. A literatura, enquanto manifestação da cultura de um povo é influenciada pelas relações sociais estabelecidas em cada época. A linguagem, como material da arte literária é usada de forma especial pelo escritor para expressar emoções e a visão de mundo de um determinado grupo, ou de um indivíduo. Muitos preconceitos e estereótipos com relação às pessoas cegas são reproduzidos nas personagens, contribuindo para a consolidação da identidade do sujeito dentro de uma concepção determinista e excludente. O objetivo desse texto é desvelar alguns desses estereótipos, analisando dois contos brasileiros, cujos protagonistas são cegos. Discutiremos também o caráter simbólico da cegueira representado nessas personagens. Antes de nos aproximarmos dos contos, proponho uma visita ao clássico Édipo Rei, tragédia grega de Sófocles (496?-406 a.C) no qual a personagem Tirésias nos dará algumas pistas para a investigação proposta. Segundo consta da mitologia grega, Tirésias foi:
Em Édipo Rei (A Trilogia Tebana, 1989), Tirésias, o oráculo, é consultado por Édipo, então rei de Tebas, num momento de crise:
Tirésias tinha o poder de ver “a realidade toda” que não se mostrava aos olhos, podia ver o impossível aos homens comuns, apesar ou por causa da cegueira. Dois pontos são importantes ressaltar dessa breve visita ao clássico: primeiro, o fato de a cegueira ter sido imposta a Tirésias como castigo; segundo, o fato de ele ter recebido de Zeus o dom da profecia como compensação a esse castigo. Na Idade Média, no auge do cristianismo, à idéia de castigo determinada por algum poder sobrenatural (do bem ou do mal, de Deus ou do demônio), juntou-se a de piedade, fazendo com que os cegos fossem levados aos abrigos ou asilos para receberem proteção e atenção às suas necessidades básicas. De acordo com Kirk e Gallagher (1991), a criação de grandes asilos para abrigar pessoas com deficiência e oferecer-lhes uma educação desenvolveu-se na contemporaneidade, principalmente nos séculos XVIII e XIX. No final do século XX, e mais especificamente a partir da década de 1980, há um movimento no sentido de integrá-los à sociedade. Foucault (1979) em Microfísica do Poder, no capítulo intitulado “A casa dos loucos” afirma que,
Ora, por que outro motivo estariam os cegos sendo levados aos asilos para uma vida totalmente segregada? A comiseração funciona apenas como desculpa para que a sociedade possa livrar-se do incômodo da diferença e das demandas que dela advém. Quem não se encaixa no modelo de sujeito idealizado, precisa de alguma forma ser colocado para fora do sistema e controlado, para que a suposta ordem não seja pervertida. Isso posto, vamos nos aproximar do conto “As Cores” de Orígenes Lessa, publicado em 1960 no livro Balbino, Homem do Mar. Para este trabalho utilizaremos a edição organizada por Ítalo Moriconi (2001, p. 224-228) [1] O conto trata do drama da personagem Maria Alice, cega, que ironicamente vive num mundo de referências predominantemente visuais. “Como seria a cor e o que seria? Conhecia todas pelos nomes, dava com elas a cada passo nos seus livros, soavam aos seus ouvidos a todo momento, verdadeira constante de todas as palestras” (LESSA, p.224). As cores e imagens, que compõem o mundo dos videntes (pessoas que enxergam) são para Maria Alice referências de um mundo que não é seu: “casa cheia de ecos de um mundo não seu, mundo em que a imagem e a cor pareciam a nota mais viva das outras vidas de ilimitados horizontes” (LESSA, p.224). A personagem é apresentada como alguém que pertence a um mundo limitado se comparado ao das outras personagens que enxergam. Observamos que a idéia de que os cegos habitam um mundo limitado e inferior é fruto de uma construção social, pois o que realmente o limita não é a deficiência em si, mas a forma como ela é concebida na sociedade. Assim como outras categorias, as pessoas cegas são estigmatizadas, marcadas pejorativamente como incapazes e inferiores, dependentes e não produtivos, portanto, inaptos a progredir, a alcançar qualquer sucesso na vida. Esse estigma funciona como justificativa para a sua não inserção no meio social, influenciando as relações pessoais desses indivíduos, não só sua relação com os outros, mas também sua relação consigo mesmo. De acordo com Carlos Alberto Marques, professor da Faculdade de Educação da UFJF (1994):
Maria Alice tenta se adaptar ao mundo visual, relacionando as cores, “verdadeira constante de todas as palestras” (LESSA, p.224), há experiências que possuem um sentido para ela como, por exemplo, associar a beleza que atribuem a um objeto pela sua cor a uma sonata de Beethoven. Mas cor é algo que não se apreende pela audição ou pelo tato. Cor pertence totalmente ao mundo da visão, consagrado pela modernidade, com suas vitrines e espelhos, outdoors e letreiros luminosos. No conto, ver “era o sentido que permitia encontrar o bonito, sem tocar [...] ver era saber que um quadro não constava apenas de uma superfície estranha, áspera e desigual, sem nenhum sentido para o seu mundo interior” (LESSA, p.225). Como nos aponta João Vicente Ganzarolli de Oliveira (2002), professor da Escola de Belas Artes da UFRJ, os sentidos considerados essencialmente estéticos são a visão e audição. A beleza captada pelo tato é diferente da captada pela visão. Não ver, portanto, é algo limitante num mundo onde prevalece o visual e caberia àqueles que não enxergam adaptar-se. Esse pensamento permeia o relacionamento com qualquer pessoa que esteja fora dos padrões esperados e são considerados por esse motivo, inferiores. Temos um exemplo disso quando Maria Alice aconselha Ana Beatriz a usar o vestido verde. “Dizia aquilo um pouco para que não dessem conta de sua inferioridade, mais ainda para não inspirar compaixão” (LESSA, p.226). A atitude de compaixão, instigada pelos ideais do cristianismo desde a Idade Média, ainda é predominante com relação às pessoas cegas. Não há na sociedade nenhum movimento de aceitação a outra forma de percepção da realidade, e isso é o que torna a experiência da cegueira tão negativa. Há passagens no conto que demonstram a precariedade e, por que não dizer, a crueldade da atitude piedosa, fruto na maioria dos casos de desinformação, e o quanto ela impede uma aproximação verdadeira da personagem. Ela não é vista como um indivíduo com capacidades e dificuldades como qualquer outro, mas, antes, é vista como cega; a deficiência chega antes de Maria Alice.
Mais adiante, o conto nos remete ao personagem Tirésias, aquele que ficou cego como castigo e recebeu o dom da adivinhação como compensação a esse castigo. A idéia da compensação prevalece no imaginário popular. Atribui-se ao cego uma capacidade para enxergar além, para ver o que os outros, apesar de possuírem olhos aptos ao mundo material, não conseguem ver:
A chamada teoria da “compensação sensorial” segundo a qual, quando da privação de um sentido, os outros são automaticamente reforçados, não é confirmada pela ciência. Segundo Kirk e Gallagher,
Estudos de Telford e Sawrey (1976) confirmam que a superioridade das áreas de percepção sensoriais como tato, olfato, audição e até mesmo da memória são resultado do maior uso para obter informações e para se orientar pelos ambientes. A idéia de sentidos altamente aguçados como compensação à falta de outro é um mito que, conforme as palavras de Oliveira, tenta “fazer do deficiente um ser superior aos homens normais” (2002, p.92). Seria uma maneira de aliviar a falta, através de uma suposta superdotação. É certo que algumas pessoas cegas, por desenvolverem bem os sentidos do tato, olfato e audição, conseguem reconhecer e atribuir características a outras pessoas mesmo não as vendo; seja pelo apuramento dos sentidos remanescentes, seja pelas informações que ela já possui sobre aquele indivíduo. Não há milagre nisso, mas há sempre uma tendência em exacerbar e até mesmo fantasiar essa possibilidade. Vigotski (1995) explica com clareza a “reorganização” psíquica que ocorre no indivíduo desprovido da visão:
Observamos na narrativa certa despreocupação das personagens videntes com o mundo desprovido da visão, ignorando que o cego pode ficar sem entender algumas coisas, repetindo-as como conceitos assimilados sem compreensão. É o que chamamos de verbalização: a pessoa conhece o mundo pelo que lhe falam dele e não a partir da própria experiência. Comodamente, acredita-se que esse conhecimento vem da percepção sobrenatural que os cegos teriam. “Àqueles pequeninos milagres de sua intuição e de sua capacidade de observar, todos estavam habituados em casa. Por isso lhe falavam sempre em termos de quem via, para quem via. E nesses termos lhes falava também” (LESSA, p.226). E a personagem entra nesse jogo, criando um círculo vicioso de faz-de-conta. Há, em contrapartida, uma distinção clara entre o mundo dos videntes e o mundo dos que não enxergam, mundo que Maria Alice odiava numa silenciosa revolta: “O seu, de humildes e resignados, cônscios de sua inferioridade humana, o outro, o da piedade e da cor” (LESSA, p.227). Vigotski (1995) afirma que os próprios cegos sentem-se pressionados a mostrar de forma compensatória o seu valor, já que cegueira é vista como um desvio social. A cegueira cria dificuldades para a participação do cego na vida. Por esta linha se ativa o conflito. Na realidade, o defeito se projeta como um desvio social. A cegueira coloca o seu portador numa determinada e difícil posição social. O sentimento de inferioridade, de insegurança e debilidade surgem como resultado da valorização, por parte dos cegos, de sua posição. Como uma reação do aparato psíquico se desenvolvem as tendências em direção à supercompensação. Estas tendências estão dirigidas à formação de uma personalidade de pleno valor no aspecto social e à conquista de uma posição na vida social (tradução nossa) [3].Os dois mundos diferentes, o dos cegos e o dos videntes, a personagem aprendeu a perceber no Instituto que freqüentou, do qual se recorda. “Detestava o ambiente de humildade, raramente de revolta, que lá encontrara” (LESSA, p.226-227). Na época em que o conto foi escrito, 1960, as pessoas com deficiência eram educadas exclusivamente em escolas especiais ou grandes institutos, totalmente segregadas do ambiente familiar e social. Essas instituições ou asilos possuem um caráter ambíguo, já apontado por Foucault (1979). A respeito dessas instituições, Marques (1994) diz que:
A institucionalização é uma proteção à sociedade que se sente ameaçada por aqueles que põem em cheque a identidade do sujeito tradicional como possibilidade única de existir. A personagem ocupa lugares pré-determinados aos cegos (e aos desviantes em geral). Espaços internos, fechados, sem nenhum contato com a vida real. São eles: a casa, universo familiar ao qual ela se adapta; e o instituto, ambiente adaptado para educar os cegos. O foco da narrativa está na referência às cores, que inclusive lhe atribui o título: “As cores”. Em torno desse elemento o narrador vai mostrando a personagem, que, ironicamente, tem sua vida referenciada pela cor. O mundo dos videntes se impõe como única forma de interação. A cor foi usada para revelar o seu contrário: a não-cor ou o não-sujeito, negado pela diferença, subjugado pelo desvio. Maria Alice tenta adaptar-se. Uma camaleoa sobre a pedra do determinismo, sobre a dureza de uma sociedade fechada às diferenças.
Mas as relações que Maria Alice estabelece não a satisfazem. Não há movimento na personagem, ela é marcada pelo estereótipo tradicional do cego, artificialmente adaptado ao mundo visual, dentro dos espaços que lhe são autorizados. O momento crítico da narrativa se dá quando é revelado que o pai a impediu de casar-se, porque o rapaz era mulato. “Você não tem juízo criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! Mulato era cor” (LESSA, p.228). A personagem tem sua possibilidade de realização afetiva negada pelo mesmo preconceito excludente reservado aos negros, aos de outra cor. E novamente a cor, simbólica e ironicamente representando a impossibilidade, a não-vida para a qual é destinada a personagem. O outro texto que analisaremos é “Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria” de António de Alcântara Machado. O conto foi publicado postumamente em 1936, no livro Mana Maria e contos avulsos. Utilizaremos como referência a edição Contos Reunidos Brás, Bexiga e Barrafunda Laranja da China e outros contos, organizada por Djalma Cavalvante e Cecília de Lara (2002, p. 176-179) [4]. Em uma perspectiva totalmente diferente da personagem Maria Alice, o conto apresenta-nos o Cego Baiano ou Baiano Velho, codinomes que o narrador utiliza para referir-se à personagem. O nome verdadeiro não aparece na narrativa. O espaço narrativo é um trem em viagem. Um espaço em movimento, que supõe uma travessia, um devir. A ação se desenrola dentro do movimento da viagem. “Trem misterioso. Noite fora, noite dentro” (MACHADO, p.176). Trem que “recebeu em Maguari o pessoal do matadouro” (ibid., p.176) cujas roupas estavam manchadas de sangue. O tempo é determinado claramente: “aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis” (ibid., p.176). Cego flautista, vindo de um concerto em Bragança a caminho de Belém. Observamos aqui um lugar-comum que é a associação dos cegos com a música, como seres dotados de grande inspiração, ou dotados de uma capacidade auditiva especial em compensação à falta da visão, o que conforme já dissemos anteriormente, não tem fundamento científico. A deficiência em si não desenvolve nenhum talento especial. Há cegos com aptidão para música e outros, não. O trem estava às escuras e “Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava conformado. Parecia trem de carga o trem de Maguari” (ibid., p.176). Assim como o Cego Baiano, ninguém enxergava no trem. A cegueira igualava a todos, tanto no que diz respeito ao não enxergar o mundo visível, quanto ao não enxergar a própria condição de pessoas viajando num trem que “parecia trem de carga”, que carrega coisas e não gente. Uma dupla miséria: as condições sub-humanas da viagem (de pé, sem luz, pisoteando-se) e a miséria da não-percepção da própria condição. Cego baiano não sabe do escuro do trem, até que seu guia o informa e ele “Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem” (MACHADO, p.177). A palavra claríssimo num contexto de escuridão é ironicamente usada sugerindo que Baiano Velho apesar de não enxergar, sabia bem o porquê do escuro. Sua percepção do escuro do trem é clara e crítica em relação aos demais passageiros. De acordo com o dicionário de termos literários de Massaud Moisés:
Ainda sob o recurso da ironia, Cego Baiano expõe aos demais passageiros, sua indignação por não ter luz no trem, explicando o desaforo da situação e chamando os demais passageiros à reação.
É o cego que em meio à escuridão leva a luz do conhecimento às pessoas que ali estão, contrariando o senso comum que relaciona o conhecimento ao sentido da visão. Ele ilumina através da razão, desfazendo a cegueira coletiva, bem definida por Saramago em Ensaio sobre a Cegueira: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem” (1995, p.310). A partir do momento em que Cego Baiano levanta o véu da situação, os passageiros se revoltam e fazem propostas de protesto como matar o chefe do trem, fazer passeata em Belém com banda de música, discurso e foguetes. Os passageiros do trem, trabalhadores do matadouro, revoltados, começam a destruí-lo e o fazem como se cortassem as carnes dos animais, conforme no seu trabalho. “Magarefe-chefe [...] tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: - Dois quilos de lombo!” (MACHADO, p.178) A rebelião continuou, apesar das súplicas do chefe do trem, até a chegada na estação de Belém.
Há um tom de crítica social ironicamente sugerido na necessidade da troca do título e pelo uso das palavras em contraste: paz e conflito. A revolta, enfim, continuou fora do trem. A polícia foi averiguar a queixa e interrogou vários passageiros. “Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso” (MACHADO, p.179). Esse passageiro revela que a causa do motim foi a falta de luz nos vagões e quem encabeçou o movimento foi um cego. O resultado de seu depoimento marca o desfecho da narrativa: “Quis jurar sobre a Bíblia, mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com autoridade não se brinca” (ibid., p.179). O apólogo, conforme é apresentado no título Apólogo brasileiro sem véu de alegoria apresenta explicitamente sua dupla moral: a religiosa “quis jurar sobre a Bíblia” (ibid., p.179), colocando a religião acima de qualquer suspeita, e a política, “com autoridade não se brinca” (ibid., p.179). Uma crítica ao autoritarismo dos poderes estabelecidos, tanto políticos, quanto religiosos. A cegueira de Baiano Velho é uma metáfora para trazer à tona outras cegueiras. Para tal, o autor retira o cego da instituição ou do ambiente familiar, aos quais eram destinados à época, e o coloca num lugar de movimento (um trem em viagem) onde ele mesmo movimenta a ação. O cego, tradicionalmente pacato e confinado, é deslocado para o ambiente social. Ao contrário de Maria Alice, Cego Baiano é uma personagem em devir. Devir, que segundo Deleuze identifica-se com a própria literatura: “Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivida ou vivível” (1997, p.11). O autor do conto, paulista, desloca também sua narrativa para a região norte, Pará, onde viveu entre 1915 a 1920 o famoso repentista nordestino conhecido como cego Aderaldo, que após perder a visão aos 18 anos, descobriu seu “dom para cantar e improvisar”. Viajou por várias regiões do norte e nordeste principalmente, aceitando desafios de repentistas famosos, divulgando a cultura do sertão, contrariando o que era esperado de sua condição de cego.
O escritor é um indivíduo inserido em um contexto histórico-social e, como tal, é influenciado e influencia o meio no qual vive. A literatura, portanto, é reveladora da cultura de um grupo social de uma determinada época. Mas a literatura parte do real e supera-o, deforma-o e o mostra com mais clareza, numa atitude crítica e visionária ao mesmo tempo. Nos textos estudados observamos que as personagens possuem verossimilhança, pois vivem situações fictícias ancoradas no real. Ao mesmo tempo os textos são críticos, mostrando através de recursos próprios da literatura, o avesso e o devir das coisas. Percebemos que os contos confirmam estereótipos vivenciados no senso comum com relação à cegueira, mas também os extrapolam acrescentando-lhes novos elementos. O simbolismo da cegueira mostra-se ora como representação de incapacidade cognitiva e de autonomia, ora indicando uma visão sobrenatural e/ou compensatória, colocando o sujeito em um místico e mítico patamar de superioridade. Ambos os enfoques marcam o cego como um ser diferente, especial, desacreditado para uma vida social normal e participativa. No segundo texto especificamente, a personagem participa de forma ativa construindo a cena. Ela está inserida no meio social, tem iniciativa, inteligência e autonomia. Mas, no final, o cego é desacreditado pela “autoridade” como mentor do movimento e por ter percebido que a falta de luz no trem remetia a uma questão maior, que os outros passageiros não percebiam. Colocando à parte a ironia da situação que pode abrir outros caminhos de interpretação, o cego é apontado como incapaz de ter uma visão de mundo provinda da sua inteligência e capacidade intelectual, numa vinculação comum entre ver e saber, e, conseqüentemente, não-ver e não-saber.
♣ Título do artigo:
Personagens cegas na literatura brasileira: estereótipo e símbolo [1]
As referências seguintes dessa edição do conto serão indicadas por LESSA e o
número da página. ♣ in
http://www.se.pjf.mg.gov.br/escolas/cosette/artigos/
| |
|
Início | Textos didácticos | A Saúde dos Olhos | Notícias | Olhares sobre a cegueira | Leis e Ajudas | Contactos | ||