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Biografia
Foi no século XVIII que se iniciou, de forma sistemática, o ensino dos cegos. Valentin Haüy (1745-1822), homem de ciência e homem de coração, fundou em Paris, em 1784, a primeira escola destinada à educação dos cegos e à sua preparação profissional. Homem de coração, Valentin Haüy teve a ideia de instruir os cegos depois de haver contemplado, na Feira de Santo Ovídio, em Paris, um espectáculo que o chocou profundamente. Sobre um estrado, por conta de um empresário sem escrúpulos, dez cegos exibiam-se como fantoches. Homem de ciência, influenciado pelas filosofias sensistas segundo as quais tudo vinha dos sentidos, Valentin Haüy entendeu que na educação dos cegos o problema essencial consistia em fazer que o visível se tornasse tangível. Adaptou, pois, para o seu uso, os processos dos videntes. Aliás, Valentin Haüy foi o primeiro a defender o princípio de que, tanto quanto fosse possível, a educação dos cegos não deveria diferenciar-se da dos videntes. Na sua escola, para a leitura, adoptou o alfabeto vulgar, que se traçava em relevo na expectativa de que as letras fossem percebidas pelos dedos dos cegos. Para a escrita (redacções e provas ortográficas), serviu-se de caracteres móveis. Os alunos aprendiam a conhecer as letras e os algarismos, a combinar os caracteres para formar palavras e números e a construir frases. Tudo isso não passava de meros exercícios tipográficos, sempre condenados à destruição. O problema da educação dos cegos só ficou satisfatoriamente resolvido com a invenção e adopção do Sistema Braille - processo de leitura e escrita por meio de pontos em relevo hoje empregado no mundo inteiro. O Sistema Braille é um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se tem adaptado a todas as línguas e a toda a espécie de grafias. Com a sua invenção, Luís Braille abriu aos cegos, de par em par, as portas da cultura, arrancando-os à cegueira mental em que viviam e rasgando-lhes horizontes novos na ordem social, moral e espiritual.
Luís Braille Luís Braille era natural de Coupvray, pequena aldeia a leste de Paris, onde nasceu a 4 de Janeiro de 1809. Era o filho mais novo de Simão Renato Braille, o correeiro da localidade, e de Mónica Baron. Tinha um irmão e duas irmãs.
A sua vida foi uma vida Os pais souberam assegurar, da melhor maneira possível, a primeira educação deste seu filho cego. Sabe-se que Luís Braille frequentou a escola da sua aldeia, beneficiando assim do contacto com pequenos condiscípulos videntes. Sabe-se também que quando Luís Braille chegou à escola que Valentin Haüy havia fundado com carácter privado, e que, depois de ter passado por diversas vicissitudes, tinha então o nome de Instituição Real dos Jovens Cegos, sabia fazer franjas para os arneses. Este trabalho foi a base do desenvolvimento da sua destreza manual.
O pai de Luís Braille teve conhecimento da existência da Instituição Real dos Jovens Cegos, em Paris, e escreveu repetidas vezes ao director para se inteirar dos trabalhos que ali se realizavam e certificar-se de que eram verdadeiramente úteis para a educação do seu filho. Depois de algumas hesitações, decidiu-se pelo internamento. Luís Braille deu entrada na Instituição em 15 de Fevereiro de 1819. Ali estudou e leu nos livros impressos em caracteres ordinários, ideados por Valentin Haüy. Era habilidoso, aplicado e inteligente. Carácter sério, dele também se pode dizer que era a honradez em pessoa. Espírito metódico e apaixonado pela investigação, nele predominava a imaginação criadora e a mentalidade lógica. A partir de 1819 Luís Braille viveu uma vida de internado na Instituição dos Jovens Cegos, que foi para ele como que um segundo lar. Mas passava as suas férias em Coupvray e aqui residiu também todas as vezes que a doença o obrigou a prolongados repousos. Em Coupvray permaneceram os seus restos mortais desde 10 de Janeiro de 1852, já que a sua morte se verificou em Paris, a 6 do mesmo mês. No centenário da sua morte, em Junho de 1952, representantes de
quarenta países foram em romagem a Coupvray, ao túmulo de Luís
Braille, e acompanharam a trasladação do seu corpo para o Panteão
dos Homens Ilustres. Era o reconhecimento da França, para quem o
nome de Braille é um raio do esplendor da intelectualidade e do
humanismo francês. Era a gratidão dos cegos de todo o mundo, para
quem Braille, mais do que um nome, é um símbolo. Símbolo da
emancipação conquistada, para todos os cegos, por um dos seus. Da sonografia de Barbier ao sistema braille No próprio ano em que Luís Braille foi admitido como aluno da Real Instituição, o capitão de artilharia Carlos Barbier de la Serre começou a interessar-se pela escrita dos cegos. Numa outra fase desta evolução Barbier teve a ideia de designar as coordenadas dos seus símbolos sonográficos por certo número de pontos (indicativos da linha e da coluna a que o símbolo pertencia) colocados em duas filas verticais e paralelas. Assim, por exemplo, o sinal que estivesse em última posição na segunda linha seria representado por dois pontos na fila vertical esquerda e seis pontos na fila vertical direita. Neste ponto da sua evolução a sonografia de Barbier estava concebida e realizada para que os videntes se entendessem no que concerne à escrita secreta por meio de pontos, que deviam fazer-se com o lápis ou a pena. Mas, sendo Barbier capitão de artilharia, algum dia terá pensado na necessidade de os oficiais em campanha expedirem mensagens na obscuridade. Assim, em novo aperfeiçoamento, introduziu os pontos em relevo para ir ao encontro dessa necessidade. Barbier inventou um pequeno instrumento por meio do qual, com auxílio de um estilete, podiam gravar-se no papel todos os símbolos do seu sistema. E deu o nome de escrita nocturna sem lápis e sem tinta a esta sonografia mais aperfeiçoada. A escrita nocturna podia até tornar possível decifrar mensagens no escuro, contando os pontos com os dedos. O tacto acabou por aparecer como elemento essencial para a interpretação dos símbolos formados por pontos em relevo, que agora constituíam a sonografia de Barbier. Foi então que lhe ocorreu, não se sabe devido a que circunstâncias, pôr esta sonografia, ou escrita nocturna , ao serviço dos cegos. Do ponto de vista psicológico, coube-lhe o mérito de evidenciar que a leitura por meio de pontos é mais adequada para o sentido do tacto do que as letras vulgares em relevo linear. Em Março e Abril de 1821, depois de ter experimentado com alguns cegos, Carlos Barbier foi recebido na Instituição e apresentou a sua escrita nocturna . Mas as grandes dimensões dos caracteres tornavam difícil conhecê-los ao primeiro contacto táctil e lê-los sem ziguezaguear com o dedo através das linhas. Por outro lado, os princípios fonéticos em que o sistema assentava faziam dele, apesar dos seus méritos, um sistema pouco prático. O sistema de Barbier nunca foi usado na Instituição, mas constituiu a base dos trabalhos que Luís Braille realizou por volta de 1825. Luís Braille reconheceu que os sinais com mais de três pontos em cada fila ultrapassavam as possibilidades de uma única percepção táctil. Tratou, pois, de lhes reduzir as proporções, de modo a obter sinais que pudessem formar uma verdadeira imagem debaixo dos dedos. Além disso, criou uma convenção gráfica, atribuindo a cada símbolo valor ortográfico e não fonético, em perfeita equivalência com os caracteres vulgares. Aponta-se geralmente o ano de 1825 como a data do aparecimento do Sistema Braille, mas só em 1829 Luís Braille publicou a primeira edição do seu Processo para Escrever as Palavras, a Música e o Canto-Chão por meio de Pontos, para Uso dos Cegos e dispostos para Eles, a que deu forma definitiva na segunda edição publicada em 1837. Na edição de 1829 há 96 sinais. Os sinais estão agrupados em nove séries de dez sinais cada uma e mais seis suplementares. Apenas as quatro primeiras séries correspondem ao sistema que actualmente conhecemos. As restantes séries combinam pontos e traços, aproveitando, pois, elementos dos métodos anteriores de escrita linear. O Processo de 1829 proporcionou uma excelente base de experimentação. Sabe-se que por volta de 1830 o Sistema Braille se começou a empregar nas aulas para a escrita de exercícios. Esta feliz iniciativa fez com que se prescindisse dos sinais com traço liso, muito difíceis de escrever. A edição de 1837 confirma o alfabeto e estabelece uma estenografia rudimentar, que evoca claramente a sonografia de Barbier. Normaliza a representação dos números, que vêm formados pelos sinais da primeira série precedidos do que ainda hoje conhecemos como sinal numérico . Os sinais de pontuação são representados com os sinais que constituem a actual quinta série. A edição de 1837 contém ainda uma notação que, nas suas linhas
essenciais, constitui o núcleo da musicografia braille dos nossos
dias. O triunfo do sistema braille
Era necessário um cego para imaginar um alfabeto táctil. E também foi preciso, em muitos sítios, o esforço perseverante dos cegos para impor o seu uso. Os professores e directores de escolas especiais, quase sempre pessoas videntes, eram contrários à adopção de um alfabeto duro para a vista. Por isso, agarravam-se ao princípio de Haüy segundo o qual a educação dos cegos não deveria diferenciar-se da dos videntes, levavam esse princípio ao exagero e não renunciavam à leitura em caracteres comuns. Só o formidável impulso dos cegos que se serviam do alfabeto braille pôde obrigar os responsáveis pela sua educação a reconhecer os frutos que a aplicação deste alfabeto produzia nas escolas. Coisa diferente aconteceu nos países ou regiões em que não era conhecido nenhum outro método de leitura e escrita para cegos. Foi o caso da América Latina, onde a história da educação das pessoas cegas começa com o Sistema Braille. A chegada do braille, o início da alfabetização e educação e também a criação de imprensas e bibliotecas para cegos foram fenómenos simultâneos. Na França. - A Instituição Real dos Jovens Cegos, onde o Sistema
Braille foi concebido e aperfeiçoado, demorou 25 anos a aceitá-lo de
maneira definitiva. Aponta-se a data de 1854 como a da implantação
do Sistema Braille em França. NO BRASIL. - A data de 1854 pode também considerar-se como o
ponto de partida da difusão do Sistema Braille fora da França. Nesse
ano foi levada a cabo, na Instituição Real dos Jovens Cegos, a
impressão de um método de leitura em língua portuguesa, registado no
Museu Valentin Haüy com o nG 1439. EM PORTUGAL. - Adélia Sigaud estava em Lisboa por volta de 1885. É conhecida na história da tiflologia em Portugal como Madame Sigaud Souto. Aqui estava também, por essa altura, Léon Jamet, que era organista na igreja de S. Luís dos Franceses e havia estudado na Instituição de Paris. A convivência com estes dois não videntes instruídos motivou, em 1887, um grupo de pessoas a fundar a Associação Promotora do Ensino dos Cegos. Em 1888 a APEC inaugurava a sua primeira escola, que adoptou a classificação de asilo-escola e tomou por patrono António Feliciano de Castilho em 1912, ao instalar-se em Campo de Ourique, em edifício próprio. Branco Rodrigues (1861-1926) colaborou com Madame Sigaud Souto. Foi o primeiro grande impulsionador da valorização dos cegos em Portugal. Em 1896, depois de ter instruído alguns alunos na escola da APEC, criou uma aula de leitura e de música no Asilo de Nossa Senhora da Esperança, em Castelo de Vide. Em 1897, numa sala cedida pela Misericórdia de Lisboa, instalou outra aula de leitura. Fundou escolas que vieram a transformar-se no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, em S. João do Estoril, e no Instituto S. Manuel, no Porto. Dotou essas instituições com bibliotecas braille, literárias e musicais, quer adquirindo livros impressos no estrangeiro, quer promovendo a sua produção por transcritores e copistas voluntários. Além disso, com a colaboração de um habilidoso funcionário da Imprensa Nacional, fez as primeiras impressões em braille que apareceram em Portugal. A primeira impressão foi em 1898, de um número especial do Jornal dos Cegos , comemorativo do 4º centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia. NOS PAÍSES GERMÂNICOS. - A segunda edição do Processo , em 1837,
foi confeccionada para dar a conhecer o Sistema Braille e assegurar
a sua difusão no estrangeiro. Apresentava o Pai Nosso em seis
línguas - latim, italiano, espanhol, inglês, alemão e francês -, com
a correspondente versão em caracteres ordinários em relevo linear.
Sabe-se que esta edição foi remetida a todas as escolas de cegos
então existentes. NOS ESTADOS UNIDOS. - De todos os países de línguas europeias só os Estados Unidos da América se atrasaram muito em seguir este movimento. Na maior parte das instituições usavam-se os caracteres romanos juntamente com o New York Point ou Wait System. Neste sistema, o rectângulo braille tinha três pontos de largura por dois de altura. O acordo apenas surgiu no Congresso de Little Rock, em 1910.
O braille original impunha-se pelas suas próprias virtudes. O sistema braille e a vida dos cegos
O Sistema Braille é constituído por 63 sinais, obtidos pela
Dispondo de um processo fácil de leitura, o gosto pelos livros estendeu-se amplamente entre os cegos e ocupou um lugar importante na sua vida. À instrução oral sucedeu a instrução pelo livro. O conhecimento intelectual, sob todas as suas formas (filosofia, psicologia, teologia, matemáticas, filologia, história, literatura, direito...), tornou-se mais acessível aos cegos. Os benefícios do Sistema Braille estenderam-se progressivamente, à medida que as aplicações revelavam todas as suas potencialidades. As estenografias tornaram a escrita mais rápida e menos espaçosa. As máquinas de escrever permitiram fazer simultaneamente todos os pontos de um sinal, em vez de os gravar um a um, com o punção. Enfim, obteve-se o interponto, graças a um sistema de precisão em que é possível intercalar os pontos do reverso de uma página com os do seu anverso. Nos dias de hoje as novas tecnologias representam o mais espantoso contributo para valorizar o Sistema Braille, depois da sua invenção. A drástica redução de espaço proporcionada pelo braille electrónico é exemplo disso. Um livro em braille com 2000 páginas de formato A4 pode ficar contido numa só disquete. Uma vez introduzido o texto desse livro no computador, o utilizador cego tem ao seu alcance toda a informação não gráfica disponível no ecrã, que pode ler através de um terminal braille. Um outro exemplo é a facilidade de imprimir textos em braille. Introduzidos no computador, os textos podem ser submetidos a um programa de tratamento específico e sair numa impressora braille. Os textos assim tratados podem utilizar-se, quer na produção directa em papel, quer na produção de placas de impressão, conforme o número de exemplares a obter. A impressão de livros, permitindo a sua multiplicação, tem um efeito cultural considerável.
A utilização do sistema braille nos nossos dias Não obstante as virtudes do Sistema Braille, não obstante a extensão dos seus benefícios, temos de reconhecer que nos nossos dias existe uma tendência para a menor utilização do braille e para o abaixamento da qualidade do braille que se utiliza. O alerta foi dado quando o uso dos livros sonoros se começou a generalizar, mas há outros factores que igualmente explicam a crise. Entre estes factores conta-se a exiguidade dos fundos bibliográficos braille, que podem eventualmente não corresponder às necessidades dos potenciais utilizadores. Em Portugal, por exemplo, a maior parte do braille que se produz é destinada ao ensino, designadamente aos estudantes que frequentam o ensino regular. A crise do braille também tem a ver com dificuldades inerentes ao próprio braille, sobretudo quando, como acontece actualmente entre nós, essas dificuldades são agravadas por um ensino mal orientado. Efectivamente, hoje em dia, durante a Escolaridade Obrigatória, os nossos estudantes cegos não são motivados para a prática do braille nem o conhecem em todas as suas modalidades. Lêem pouco, o processo de reconhecimento dos caracteres é lento e eles cansam-se depressa. Incapazes de ler a um ritmo satisfatório, fogem de utilizar os livros e manuais que já vão tendo ao seu dispor. Recorrem preferencialmente a textos introduzidos no computador, que ouvem com recurso à voz sintética, ou servem-se de leituras feitas por outrem, normalmente gravações em fita magnética (livros sonoros). A falta de leitura directa reflecte-se, naturalmente, na escrita, que é deficiente quanto ao braille e desconcertante quanto à ortografia. Os livros sonoros e a informática são muito importantes para o desenvolvimento cultural dos cegos, mas nada poderá ou deverá substituir o braille como sistema base da sua educação.
Tal como a leitura visual, a leitura braille leva os conhecimentos ao espírito através de mecanismos que facilitam a meditação e assimilação pessoal daquilo que se lê. O braille permite estudar os quadros em relevo e ler eficientemente os livros técnicos. O braille é, ainda, o único meio de leitura disponível para os surdocegos. Por outro lado, a perfeição na escrita está relacionada com a leitura braille que cada um faz, pois é através dela que entra em contacto com a estrutura dos textos, a ortografia das palavras e a pontuação. A qualidade do ensino do braille é decisiva para uma leitura destra e para a aquisição de hábitos de leitura. Se os alunos cegos, como as outras crianças, forem motivados para a prática normal e constante do seu método de leitura e escrita, a leitura será rápida e tornar-se-á também mais agradável e instrutiva, porque a atenção, menos requerida pelo trabalho de reconhecimento dos caracteres, irá mais em ajuda do pensamento. Ao acabarem de ler, as crianças e jovens cegos terão aprendido alguma coisa e estarão mentalmente dispostos a partir para novas leituras. Ora, é a ler que se ganha e se desenvolve o gosto pela leitura. Só o gosto de ler garante que o processo de aquisição de cultura não se interromperá ao sair da Escola, apesar das vicissitudes do quotidiano. E não se pode ignorar a importância da cultura como factor de integração social, como instrumento de trabalho e como elemento de conscientização na vida das pessoas cegas. É, pois, necessário rever a política até agora seguida pelo Ministério da Educação no que toca ao ensino dos alunos cegos, para que os passe a habilitar a ler e a escrever braille exactamente como os demais alunos são habilitados a ler e a escrever. Levar os jovens cegos a utilizar abusivamente meios que são complementares do braille, não lhes fornecer os livros em braille e outros materiais de que precisam e já existem ou é possível produzir, abandoná-los a si mesmos ou às condições que o meio familiar e a sua escola lhes dêem, equivale a comprometer seriamente, no dia de amanhã, as suas possibilidades de afirmação, tanto na vida profissional como nas actividades de lazer. Excerto de "A Invenção do Braille e a sua
Importância na Vida dos Cegos" - José António Lages Salgado Baptista
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Julho 2000 ?
NOUVEAU PROCÉDÉ Faire écrire les aveugles, leur faire surmonter cet obstacle qui restreint si sensiblement leurs rapports sociaux, c'est une entreprise tentée par tous ceux qui se sont occupés de leur éducation ; c'est un sujet qui aurait dû être proposé pour prix par les diverses sociétés de perfectionnement ; c'est un problème à la solution duquel on trouvera peut-être que j'ai contribué. On voit quelquefois des aveugles écrivant à l'aide d'appareils plus ou moins compliqués ; mais ce ne sont que d'honorables exceptions qui attestent la puissance de l'adresse unie à l'intelligence, sans constituer un mode fixe général et facile pour écrire. De plus, ces aveugles privilégiés ne peuvent lire leur écriture, ni même être certains que leur crayon ou leur papier noir ait suffisamment marqué : considérations fécondes en conséquences défavorables, et écueils que je me suis proposé d'éviter, par un procédé au succès duquel a vivement contribué M. Fournier, digne élève et zélé collaborateur de Valentin Haüy, le fondateur des premiers établissements pour l'éducation des aveugles, en France et en Russie. Marquer sur le papier des points qui représentent la forme des lettres et fassent reliefs, voilà tout le but e ce nouveau mode d'écriture. M. Barbier a imaginé de représenter les sons et les articulations par des agrégations de points reposant sur des combinaisons fort ingénieuses ; il a permis ensuite que je modifiasse son procédé, en réduisant le nombre de points de chaque agrégation, ce qui fournit une nouvelle écriture très-répandue aujourd'hui parmi les aveugles : "Mais, disait-on, ce ne sont là que des conventions, et les initiés seuls peuvent lire les pages écrites suivant ces deux méthodes." Quoique ces objections ne soient pas réelles, puisque quelques lignes d'explication suffisent pour faire connaître à fond ces deux enseignements, elles ont été néanmoins la cause de nouvelles recherches qui m'ont conduit à un procédé dont voici l'explication : Pour faire la forme des lettres, j'ai observé que, donnant quatre points au corps de chaque caractère, il faut trois points pour la queue supérieure et autant pour l'inférieure, ce qui produit pour la hauteur entière de la lettre une hauteur verticale de dix points, marqués ou non marqués, suivant que la figure du caractère l'exige ou ne l'exige pas. On peut aussi ne donner que trois points de hauteur au corps de la lettre et deux seulement à chaque queue, ce qui fournit une écriture plus fine, mais moins régulière que l'autre. Chaque lettre est donc formée d'une suite de verticales : le b, par exemple, est représenté par quatre lignes ; dans la première sont marqués le 1e, le 2e, le 3e, le 4e, le 5e et le 6e point ; dans la seconde, le 4e et le 7e ; dans la troisième, le 4e et le 7e ; dans la quatrième, le 5e et le 6e. On analyserait de la même manière les autres lettres et les formes les plus irrégulières que l'on puisse supposer ; par extension même, les cartes de géographie, les figures de géométrie, et tout le système musical. La lettre majuscule M, si remarquable par ses dimensions, est formée de douze verticales, composées chacune de points dont la position est marquée par les chiffres suivants : 1e ligne ..... 1,7 Pour écrire, on a des planches en bois ou en métal, sur lesquelles sont tracées des portées formées chacune de dix raies concaves et horizontales ; on applique sur chaque portée une espèce de grillage dont les jours ont assez de hauteur pour laisser apercevoir les dix raies, et assez de largeur pour que l'on puisse faire deux points de front dans chaque ligne ; on place le papier entre la planche et le grillage, et à l'aide d'une simple pointe on fait les lettres, en marquant à cet effet, les points indiqués par le tableau chiffré de la forme des lettres, ou par l'esprit individuel, en observant 1° qu'il faut écrire les lettres de droite à gauche, 2° renverser chaque lettre afin que la première ligne à gauche, en lisant, soit la première à droite en écrivant. On facilite cette manière d'écrire en appliquant sur le grillage une ou plusieurs traverses extrêmement fines, pour mieux faire connaître la position des queues et du corps de la lettre. Je ferai observer que l'on obtiendra du même coup plusieurs copies de ce qu'on écrit, en plaçant l'une sur l'autre autant de feuilles que l'on veut d'exemplaires et en marquant les points sur le tout. On peut remplacer la planche rayée par une planche recouverte d'un cuir, d'un molleton ou de tout autre objet produisant un léger foulage ; le grillage peut être une toile métallique, une plaque percée à l'emporte-pièce, ou une réunion de fils métalliques croisés à angles droits et soudés l'un sur l'autre. Pour ce qui précède, on sait que tout aveugle, possédant le petit appareil décrit ci-dessus et le tableau chiffré peut, sans maître et en quelques jours seulement, apprendre à écrire, lors même qu'il serait dépourvu d'adresse et d'intelligence remarquables. L'Institution des Jeunes Aveugles de Paris vient de faire fondre des types représentant une verticale de dix points sensibles ou non sensibles ; plusieurs de ces caractères, combinés entre eux, donnent la forme de la lettre sur de grandes dimensions ; ce qui permet à l'aveugle d'analyser facilement chaque lettre et de la reproduire sur le papier à l'aide de son écritoire. On imprime, avec les types, des alphabets, que l'on joint au tableau chiffré, afin que chaque personne puisse apprendre à former la lettre, soit par l'inspection qu'elle en fait, soit par la connaissance des chiffres représentant les points à marquer. L'appareil pour mettre en relief les figures de géométrie et les cartes de
géographie, etc. , consiste dans un châssis sur lequel repose une règle mobile ;
sur cette règle sont tracées des raies verticales larges d'une demi-ligne et
éloignées l'une de l'autre de la même quantité. On applique cet appareil sur la
carte que l'on veut reproduire, et l'on place la règle en haut du châssis ; on
examine quelles sont les limites territoriales, les montagnes, les rivières,
etc. , qui aboutissent aux raies de la règle, et l'on écrit sur un cahier les
chiffres indicateurs de ces raies. Pour écrire la musique, il faut : 1° Avoir une planche recouverte d'un cuir, le tout surmonté d'un châssis ; M. Binet, élève distingué sorti de l'Institution de Paris, a imaginé conjointement avec moi, il y a plusieurs années, un procédé d'écriture plus simple encore que le précédent, mais moins avantageux dans ses résultats. Pour écrire suivant ce système, il faut 1° avoir une planche sur laquelle est appliqué un cuir ; 2° recouvrir la planche d'un cadre auquel sont fixées des traverses horizontales assez écartées pour recevoir l'oeil de la lettre qu'on y doit marquer ; 3° posséder un petit casier renfermant deux lettres de chaque espèce, lesquelles doivent être en métal, et pourraient, avec avantage, être formées par des suites de points. Pour écrire au moyen de cet appareil, on prend l'une après l'autre, dans le casier, les lettres dont on a besoin ; on les appuie sur le papier qui se trouve entre la planche et le cadre, ayant soin de reproter à mesure, dans le casier, les lettres dont on s'est servi. Quoique ce mode d'écriture soit imparfait dans la pratique, je l'ai indiqué, parce qu'il sera peut-être préféré par les clairvoyants qui, sans exercice préparatoire, voudront écrire aux aveugles et être lus par eux ; cependant je suis persuadé que ces derniers emploieront l'autre méthode avec plus de succès. On a fait plusieurs tentatives plus ou moins heureuses, pour rendre noire notre nouvelle écriture : on peut, par exemple, placer sous la feuille sur laquelle on veut écrire, un papier noirci suivant les procédé usités dans le commerce ; mais la feuille blanche, touchant la noire par choc et non par frottement, n'est que faiblement colorée par celle-ci. L'Art et l'expérience feront, sans doute, connaître, un jour, une composition chimique qui fera disparaître ces inconvénients. ? TABLEAU CHIFFRÉ DE LA FORME DES LETTRES a. 5 6 | 4 7 | 4 7 | 3 4 5 6 | 7.
1. 3 7 | 3 4 5 6 7 | 3 7. PONCTUATION ET AUTRES SIGNES . 7. ? IMPRIMERIE DE MADAME HUZARD (NÉE VALLAT LA CHAPELLE) Fin de la brochure de Louis Braille - Texte intégral BIBLIOTHEQUE NIELROW
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